
Nas últimas semanas foi possível ver o drama que acontece na Europa, entre o BCE – Banco Central Europeu – e os países que mais sofriam com a crise que se iniciou em 2008, entre eles a Grécia, Itália, Espanha e Irlanda.Porém foi na Espanha e Itália em que ocorreu certa polêmica, que chegou até a envolver o FMI: a compra de títulos espanhóis e italianos pelo BCE.
Tal episódio foi considerado pelos responsáveis como correto, porém muitos especialistas ainda afirmam que essa “ajuda” foi momentânea e vai possivelmente agravar a situação desses países. Porém para entender essa crítica é preciso primeiro entender como seu deu e o que é a crise europeia.
Primeiramente, com a crise que se iniciou em 2008 nos Estados Unidos, os bancos, o que certamente inclui os europeus, ficaram sem liquidez e restringiram drasticamente os créditos, o que ameaçou asfixiar o conjunto da economia. Os Estados, por sua vez, para deixar que isso não arruinasse sua economia interna, ajudaram os bancos falidos, pegando dinheiro emprestado de outras instituições privadas estrangeiras (outros bancos). Ou seja, salvaram uns, mas ao mesmo tempo se endividaram. A dívida acumulada ficou tão grande, como é o claro caso da Espanha e da Itália, que uma hora as grandes agências de classificação de risco, como a Standard and Poor’s (que recentemente rebaixou os EUA de AAA para AA+), simplesmente sancionaram o endividamento excessivo destes Estados, o que fez com que a taxa dos juros dos empréstimos adquiridos anteriormente aumentassem. O primeiro país a passar por esta situação foi a Grécia, mas o cenário rapidamente se alastrou para o resto da União Europeia, afetando principalmente a Espanha, a Itália e a Irlanda.
Feito isso, e com juros altíssimos, os países se percebem quase falidos. É aqui que o BCE entrouem ação. Criadoem 1998, o BCE é na teoria é um banco totalmente independente, ou seja, não pode emprestar dinheiro a nenhum governo, porém não é o que acontece na prática. Com fortíssima influência alemã o BCE decidiu “ajudar” os países endividados, concedendo um plano de ajuda, porém este deveria contar com a participação do FMI – Fundo Monetário Internacional. Nas palavras do governo alemão, a participação do FMI é fundamental, pois neste momento as instituições europeias carecem de auditores severos o suficiente para pressionar os governos envolvidos, e o FMI seria capaz de fazer isso. O que está sendo apontado como problema então é a maneira de como FMI pressiona os governos, que é exigir esforços antissociais dos países, manobra clássica na história desta organização. Entre essas demandas estão cortes brutais no orçamento público, arrocho salarial e privatizações, tudo com o objetivo de cortar gastos públicos e dirigir o excedente para o pagamento da dívida externa. Medidas como essa por sua vez tem impactos um tanto quanto negativos no ambiente interno.
Muitos indivíduos obviamente sofrerão, e já sofrem. A maioria deles são obviamente os assalariados, principalmente os que trabalham para o governo. Apenas para exemplificar, recentemente o Ministro da Economia da Itália, Giulio Tremonti anunciou, sem muitos detalhes (uma vez que um roteiro de ação ainda está sendo elaborado), os planos para atender as especificações do BCE e do FMI, o que inclui corte nos gastos políticos e até mesmo a “demissão de funcionários compensados com mecanismos de seguridade sociais mais favoráveis”, uma espécie de “direito à demissão”. O Ministro ainda citou mudanças na previdência social e até mesmo a taxação sobre rendas anuais maiores que 60 mil euros, a chamada “contribuição da solidariedade”. São medidas como estas que provavelmente vão criar o efeito inverso do esperado, e irão acabar por causar uma maior instabilidade econômica e política, não só dentro dos países em crise, mas consequentemente na União Europeia como um todo. Até agora foram vistos protestos da população contra seus governos, mas muito provavelmente chegará a hora em que perceberão que o verdadeiro culpado é um agente exterior, e se virarão contra a própria U.E.
Tal cenário econômico e político com certeza afeta as relações internacionais, e influencia muitas outras economias, como é o caso do Brasil. Em um curto prazo o que pode ser visto é a queda das ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo, mas ainda não se pode dizer quais serão as consequências em longo prazo. Especialistas dizem que se deve fazer o mesmo que foi feito em 2008, ou seja, manter o crescimento. Quando a crise dos Estados Unidos chegou ao Brasil, foi o consumo das famílias que garantiu a evolução da economia, e neste ano não deve ser diferente. Se o Brasil crescer no mínimo 4%, enquanto os outros países crescerem pouco ou nada, será o suficiente. De qualquer forma, é necessário tomar cuidado com as exportações, pois países endividados que comercializam com o Brasil podem diminuir a quantidade de produtos que são importados, o que poderá afetar negativamente a economia brasileira. Em relação às medidas governamentais, o governo brasileiro pretende ampliar a capacidade de intervenção do Estado na economia, sempre tomando cuidado em não divulgar medidas consideradas fortes de maneira abrupta, pois isso pode assustar os investidores. Já as empresas privadas, como as dos setores bancários e petroleiros, provavelmente irão adotar posições mais “defensivas” nas negociações que estão por vir.
O Brasil não deve, portanto, se abalar com a situação internacional, e devemos trabalhar para que as palavras da presidente Dilma Rousseff não se provem erradas: que o Brasil passe por mais uma crise financeira internacional “sem tremer”.
Caio Guimarães Pereira Zeidler



